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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Comentários sobre a Relação entre o Tempo e a Consciência - Parte 2

Conforme anunciado na Parte 1 desta postagem, aqui me dedicarei a alguns comentários especialmente direcionados a questão dos dispositivos que reagem a corruptibilidade do tempo. Começarei indicando como conceituo e interpreto a relação entre o instinto, o hábito, a memória, o esquecimento e a consciência, direcionando-me ao que parece ser o ponto chave de minha análise, que é a questão da centralidade da consciência em relação aos outros dispositivos.
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Com relação aos conceitos e às relações entre os dispositivos, considero que o instinto seria o desencadeador da reação ao tempo. Uma vez que a passagem do tempo é experienciada e que, nesta experiência, coisas e pessoas passam a existir e deixam de existir, como no caso extremo do nascimento e da morte, o instinto seria a percepção de que também se está sujeito a esta corrupção, mas é preciso de algum modo reagir a ela. Assim, a percepção, apesar de honesta é desmotivadora, pois reconhecer-se vinculado necessariamente a corrupção promove o sem sentido das coisas. Afinal, no decurso do tempo somos obrigados a passar por situações extremas de dor e de sofrimento, que parecem fazer sentido apenas se conseguimos relacioná-las a algo exterior ao próprio sofrimento, que pode ser uma lembrança ou algo que se aprendeu com ele. Resumidamente, consideramos que o instinto é uma reação a percepção da sujeição do indivíduo a corruptibilidade, que age em prol de sua própria preservação. Vermos a seguir o que se quer preservar através das ações.
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Antes de informar o que no fundo se quer preservar, gostaria de ressaltar os três modos de reação a percepção da própria corruptibilidade ou do sem sentido do mundo. O primeiro modo de reação seria o hábito, que se concretiza por meio de ações repetidas que mascaram a falta de sentido, dotando de continuidade os eventos que simplemente ocorrem no tempo. Neste ponto incluiríamos a cultura, pois a formação recebida desde o nascimento e a própria repetição de seus elementos serve de indício de permanência ao indivíduo, que percebe-se, então, conectado à cadeia que vai além do seu próprio aparecimento no mundo. Ou seja, toda a tradição que recebe em sua formação, serve como indício da continuidade que a sua percepção não abarca, pois seu aparecimento no mundo e no tempo começa e termina de modo abrupto. Porém, os elementos tais como a cultura e as instituições parecem, em todo o caso, ter uma existência senão eterna, pelo menos com duração mais longa que a do indivíduo. Esta forma de reação que o hábito promove, pressupõe a relação do indivíduo com elementos do mundo, cuja estabilidade vai além do tempo de vida do próprio indivíduo.
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O segundo modo de reação é a memória, que pode ser observada tanto da perspectiva individual, como da coletiva (aliás, como todas as formas de reação a corruptibilidade do tempo, mas me parece mais importante ressaltar aqui esta dupla perspectiva). De um ponto de vista individual, seria a percepção das próprias experiências que ocorreram no presente e, portanto, foram experiência atual, mas agora pertencem a um passado. No entanto, do ponto de vista coletivo, pode se confundir com o hábito, pois repetir elementos da cultura ou das instituições, é uma forma de rememorá-las. Como afirmamos na primeira postagem o esquecimento é o outro da memória e, portanto, não podemos falar de um sem tratar do outro, sendo o esquecimento o terceiro modo de reação. De modo simplificado, a memória procura preservar, pela lembrança periódica, certos eventos que não pertencem mais ao tempo presente, enquanto o esquecimento é o esforço contrário, ou seja, de relegar ao passado algo de que não se quer lembrar. Nestas duas formas de reação, parece estar presente um elemento de escolha (ou discricionariedade) e, como as escolhas estão relacionadas a nossa compreensão do que consideramos positivo (e, portanto, digno de lembrança) e do que consideramos negativo (e, portanto, indigno de lembrança), é preciso tratar de como se forma a consciência, que preside este processo de seleção.
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Uma vez que se assuma que a consciência não é somente capaz (como é) de se mover através do passado, do presente e do futuro, mesmo que deste último não tenha conhecimento pleno e realizando apenas uma projeção, seria interessante notar que é neste dispositivo que também se encerra a capacidade de organização do sentido de continuidade em relação aos eventos. Isto porquê, como vimos, o instinto é a percepção mais crua e direta da corruptibilidade e do sem sentido sugerido pela mera sucessão dos eventos. O instinto é, assim, o motor (motivador) da reação que ocorre através do hábito, da memória e do esquecimento. Mas, estas formas de reação seriam completamente aleatórias, não fosse o fato de que a consciência, que aqui estou tomando como sinônima de psique em sentido amplo, é educada e, portanto, tendente a fazer certos tipos de avaliação e de escolhas, e não toda e qualquer avaliação e escolha. Assim, o relativismo epistêmico a que estarímos pressionados a assumir no caso da concentração na percepção instintiva que temos das experiências cotidianas, dá lugar a percepção de alguma continuidade e algum sentido, cuja sede está na consciência, por ser este o dispositivo capaz de se apartar do presente.
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Assim, em que pese a capacidade da consciência de se mover entre o passado, o presente e projetar-se para o futuro, ela não é independente da historicidade e não deve, portanto, ser tomada de modo absoluto, como a solução definitiva dos problemas suscitados pela percepção da corruptibilidade. Aliás, como anunciamos, considero que aquilo que o instinto parece querer preservar em última instância é a própria consciência, pois o lado mais trágico da capacidade humana de perceber sua própria sujeição ao tempo, é saber que o esforço de atribuição de sentido ao mundo pode simplesmente terminar, de modo abrupto, quando da corrupção a que está necessariamente obrigado. Observe-se, no entanto, que não estou afirmando que esta dissolução da consciência ocorrerá, pois isso seria projetar-me a um futuro sem base alguma. O que quero ressaltar é que a própria possibilidade de que essa corrupção fatal ocorra é o desencadeador da reação à ação corrosiva do tempo.

sábado, 7 de agosto de 2010

Comentários sobre a Relação entre o Tempo e a Consciência - Parte 1


Oo.O.oO


Os comentários a seguir têm como base o fichamento inicial que fiz do Capítulo 1 da obra O fio e a trama: reflexões sobre o tempo e a história de Ivan Domingues. Gostaria, no entanto, de me concentrar em um ponto específico deste fichamento, que é a relação estabelecida entre o tempo e a consciência. Desta maneira, iniciarei com a contextualização dos elementos apresentados pelo autor, seguido de meus comentários na Parte 2 desta postagem.
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Domingues afirma que Dilthey (Introdução às ciências do espírito) considera que a nossa experiência em relação ao tempo tem relação com a intuição do efêmero, que se expressa pela percepção da corrutibilidade da natureza, da fragilidade da existência, da precariedade das instituições sociais e do ciclo a que o homem está sujeito de nascimento, crescimento e morte. Enquanto os primeiros elementos se referem especialmente a caducidade das coisas, este último atinge diretamente ao homem de modo inclemente. Esta experiência em relação ao tempo que leva a necessidade de dotá-la de sentido, mesmo que sem que seja possível resolver completamente o enigma do tempo.
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No entanto, Domingues afirma que a busca de um ponto fixo, ou seja, daquilo que é permanente em resposta a corruptibilidade das coisas não é apenas uma necessidade racional, que permite pensar o móvel, como queria Dilthey. Domingues considera que esta intuição do efêmero tem impacto mais profundo no homem, que, segundo ele, suporta mal a ideia do efêmero, fazendo o possível para afastar de si o sofrimento, a decadência e a morte.
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Baseando-se em literatura antropológica e histórica dos homens arcaicos, gregos e judaico-cristãos, afirma que o que é ressaltado é justamente o lado trágico do tempo, tal como Cronos que devora os próprios filhos, o que mostra que o tempo é mais temido do que desejado, e levando a que os homens tentem evadir-se da História, colocando-se na eternidade, ao abrigo da ação corrosiva do tempo.
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Domingues conclui, assim, que a experiência humana em relação ao tempo é formada por uma díade: a intuição do efêmero e o desejo de eternidade. E, para tratar filosoficamente deste tema, apoia sua análise na antropologia e na história da religião, em especial referindo-se às obras de Mircea Eliade O mito do eterno retorno e em filosofia Ferdinand Alquié O desejo de eternidade e Krzysztof Pomian A ordem do tempo.
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Domingues afirma, com Alquié, que os dispositivos que o homem possui para proteger-se do tempo são o instinto, o hábito, a memória, o esquecimento e a consciência, passa à explicação de cada um deles. Quanto ao instinto, que seria uma espécie de automatismo em relação ao passado e repetição no presente, e ao hábito, que seria o passado pesando sobre o presente e fixado no presente. Estes dispositivos seriam a forma de se insurgir contra o imprevisto, procurando colocar continuidade na ordem do tempo, incluindo o modo de ser dos homens e a permanência das coisas humanas.
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Quanto à memória, esta seria a faculdade do eterno no presente, conservando o passado que se adere aos homens. Esta faculdade permite a reconciliação com a História, através da reinterpretação do passado, dando novo sentido ao que está aparentemente morto. Já o esquecimento, o outro da memória, pode ser realizado em sua ação negativa ou positiva. Negativamente, é a atividade de apagar, ou ao menos empalidecer ou esvaziar o passado. E, positivamente, é lembrar e guardar na memória o que são os "gestos inaugurais", guardando-os na memória, esquecendo-se do que é passível de ação corrosiva do tempo, ou seja, o novo, o imprevisto e o efêmero. Finalmente, com relação à consciência, esta seria a faculdade do eterno por excelência, pois se desprende da cadeia temporal, movendo-se entre passado, presente e futuro.
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Na Parte 2 desta postagem apresentarei alguns comentários, especialmente sobre os dispositivos para que o homem possa estar ao abrigo da ação corruptiva do tempo.