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domingo, 10 de outubro de 2010

Resenha – White, Hayden. Meta História – Introdução (p. 36-43)

Obra: White, H. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. Tradução de José Laurênio de Melo. 2 ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.

Obs: Para ler a segunda parte desta resenha, acessar a postagem Resenha - White, Hayden. Meta-História - Introdução (p. 26-36), de 19 de setembro de 2010.

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Explicação por implicação ideológica
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- As explicações ideológicas refletem o elemento ético do historiador, decorrentes da posição pessoal que assume em relação à natureza do conhecimento histórico e as implicações que podem ser inferidas dos acontecimentos passados para o entendimento do presente. White define “ideologia” como conjunto de prescrições para a tomada de posição no mundo presente da práxis social e atuação sobre ele (para mudá-lo ou para mantê-lo). As prescrições são acompanhadas de argumentos que arrogam autoridade da ciência ou do realismo. Nesta análise, White acompanha as ideia de Karl Mannheim Ideology and Utopia, postulando quatro posições ideológicas básicas: anarquismo, conservadorismo, radicalismo e liberalismo. Afirma ainda que existiriam outras posições possíveis, como o apocalipticismo, o reacionário e o fascista, cuja essência está no autoritarismo, respectivamente, em relação a “revelação divina”, a prática de uma classe ou de um grupo como sistema eternamente válido de organização social e a autoridade indisputada do chefe carismático (p. 36-7);
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- Nota 11: White considera que o anarquismo é a implicação ideológica do romantismo do séc. XIX, do mesmo modo que o romantismo alimentou o fascismo do século XX. Já o conservadorismo não aprova uma visão anárquica do mundo e nem uma concepção radical. Pretende, assim, a defesa do status quo como elemento de uma unidade orgânica, que anarquistas e radicais sonham em promover (p. 37);
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- Os quatro posições ideológicas básicas tem em comum o fato de apresentarem sistemas de valores que revindicam a autoridade da razão, da ciência ou do realismo. Sendo assim, são epistemologicamente conscientes de um modo que os sistemas autoritários não o são, empreendendo esforço para analisar os dados do processo social, tal como vistos pelas perspectivas alternativas. Sendo assim, as formas oitocentistas de anarquismo, conservadorismo, radicalismo e liberalismo são “cognitivamente responsáveis” (p. 38);
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- Nota 12: Pepper afirma que “cognitivamente responsável” é o sistema filosófico comprometido com a defesa racional de suas hipóteses de mundo (p. 38);
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- White afirma que as quatro posições ideológicas possíveis que adotará representam uma preferência ideológica geral e não partidos políticos específicos. São diferentes atitudes em relação à possibilidade de redução do estudo da sociedade a uma ciência e à própria desejabilidade de fazê-lo, diferentes noções das lições que podem ser ministradas pelas ciências humanas, concepções sobre a direção das mudanças e diferentes orientações temporais, que levam a compreensão de passado, de presente e de futuro segundo a forma ideal de sociedade. Embora essa posição ideológica possa não ser conscientemente assumida pelo historiador. Citação: “Assim como toda ideologia é acompanhada por uma ideia específica de história e seus processos, toda a ideia de história é, também afirmo, acompanhada por implicações ideológicas especificamente determináveis” (p. 38);
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- Com relação ao problema da mudança social: é inevitável para as quatro concepções, embora apresentem diferentes enfoques quando a desejabilidade e ao ritmo destas mudanças. Conservadores desconfiam das transformações no status quo social, mas liberais, radicais e anarquistas são menos desconfiados em relação à mudança em geral, sendo estes menos ou mais otimistas em relação a mudanças sociais rápidas. Conservadores veem as mudanças como análogas às gradualizações botânicas, sendo que os liberais do séc. XIX observam-nas como ajustes ou sintonias finas de um mecanismo. Nestas duas ideologias (conservadorismo e liberalismo) considera-se que a estrutura da sociedade é sólida e que mudanças são inevitáveis, mas ela é mais eficaz quanto mais modificam partes da totalidade, ao invés de mudarem as relações estruturais. Radicais e anarquistas, por outro lado, consideram as transformações estruturais uma necessidade, os primeiros em vista de uma reconstrução da sociedade em novas bases e os segundos abolir a sociedade e substituí-la por uma comunidade, que tem sua coesão mantida por sentimento compartilhado de sua “humanidade” comum (p. 39);
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- Com relação a questão da velocidade das mudanças: conservadores defendem um ritmo “natural”, enquanto os liberais o ritmo “social” do debate parlamentar, do processo educacional ou das disputas eleitorais. Radicais e anarquistas prefiguram transformações cataclísmicas, embora os radicais sejam mais conscientes do poder necessário para levar a cabo tais transformações, observando melhor a força inercial das instituições herdadas e preocupando-se com os meios para realizar as mudanças (p. 39);
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- Existem, assim, diferentes orientações temporais segundo cada ideologia adotada. Mannheim afirma que os conservadores consideram a história como um aperfeiçoamento progressivo da estrutura social vigente, sendo esta a melhor forma de sociedade que os homens realisticamente podem contar ou legitimamente se inspirar. Liberais consideram que um tempo no futuro em que a estrutura teria sido melhorada, mas o projetam em futuro remoto, desencorajando modos radicais de sua materialização no presente. Radicais consideram o utópico como iminente, fazendo com que desejem meios revolucionários de realizá-lo. Anarquistas idealizam um passado remoto de inocência humana prejudicado pela passagem ao estado social, projetando a utopia em plano não-temporal, como uma possibilidade de realização humana a qualquer tempo, bastando que se exerça controle sobre humanidade essencial, seja pela vontade ou pela consciência (p.39-40);
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- Mannheim classifica também as diferentes ideologias segundo a demarcação temporal que fazem do ideal utópico, classificando-as em termos de congruência social e transcendência social. Assim, o conservadorismo é mais socialmente congruente, enquanto o liberalismo o é em termos relativos. O anarquismo é mais socialmente transcendente e o radicalismo o é relativamente. Na verdade, cada uma delas apresenta elementos de congruência e de transcendência, o que faz com que a questão seja mais de ênfase. As ideologias convergem em sua preocupação com a mudança e é justamente isso que os leva a justificativa histórica de seus programas (p.40);
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- A diferença entre as ideologias se coloca no valor que atribuem à instituição social existente, levando as concepções quanto a forma de evolução da história e a forma que deve assumir o conhecimento histórico. Ainda segundo Mannheim as diferentes ideologias interpretam o progresso de modos diferentes. Sendo assim, o que é progresso para uma será decadência para a outra, além do que apresentam diferentes formas de explicação para o que tem acontecido na história, o que reflete as orientações “científicas” de cada ideologia (p.40);
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- Radicas partilham com os liberais a ideia de estuda da história de modo racional e científico, apesar de apresentar diferentes concepções do que seria esta racionalidade e esta cientificidade. Enquanto os primeiros buscam leis das estruturas e dos processos históricos, estes buscam tendências gerais ou os rumos gerais do desenvolvimento. Já os conservadores e os anarquistas, acompanhando a tendência geral do século XIX consideram que é possível encontrar um sentido para a história em esquemas cognitivamente responsáveis e, portanto, não-autoritários. O anarquista tende para as técnicas empáticas do romantismo nos seus relatos históricos e o conservador tende a integrar as intuições dos objetos históricos em relato organicista do processo (p.40);
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- White considera que não existe critério extra-ideológico para julgar e as concepções conflitantes do processo e do conhecimento histórico. Uma vez que tais concepções baseiam-se em considerações éticas, assumir uma postura epistemológica para julgar a adequação cognitiva não seria mais que assumir também outra postura ética. Não é possível assegurar que uma concepção seja mais “realística” que a outra, pois divergem justamente quanto ao critério de “realismo”. Também não se pode afirmar qual dos conhecimentos históricos produzidos é mais “científica” que o outro sem certa concepção do que é uma ciência histórica ou social (p.40 - 1);
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- White afirma que no século XIX a concepção mais aclamada de ciência era o mecanicismo, mas havia divergência entre os teóricos sociais quanto à legitimidade de uma ciência mecanicista da sociedade e da história. Assim, os modos formista, organicista e contextualista continuaram a florescer nas ciências humanas do século XIX devido a estas divergências de opinião quanto à adequação do mecanicismo (p. 41);
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- A questão não é a de classificar as diferentes concepções de história do século XIX em função de determinado “realismo” ou “cientificidade”, mas antes de mostrar como considerações ideológicas permeiam as explicações dos campos históricos abordados pelos historiadores, bem como construir modelo verbal dos processos desse campo numa narrativa (p. 41);
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- White afirma que a opção ética da obra histórica se reflete no modo de implicação ideológica resultado da relação entre percepção estética (elaboração do enredo) e operação cognitiva (o argumento), levando a enunciados prescritivos que vão além da descrição ou da análise. Assim, as implicações morais de um argumento histórico tem que ser inferidas do relacionamento que o historiador presume ter existido no próprio conjunto de eventos considerado, entre estrutura do enredo da narrativa e forma do argumento para a explicação “científica” (ou “realística”) explícita no conjunto de eventos (p. 41);
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- Exemplo: eventos postos em enredo trágico podem ser explicados “cientificamente” recorrendo a leis precisas de determinação causal ou leis putativas da liberdade humana. No primeiro caso a consideração é de que o homem está atado a destino inelutável por sua participação na história, enquanto no segundo caso os homens poderia agir de modo a controlar ou pelo menos influenciar seus destinos. Ideologicamente, poderíamos afirmar que no primeiro caso temos um impulso conservador e no segundo impulso radical. Tais considerações não precisam ser explicitamente tematizadas na narração histórica, mas são compreendidas a partir do tom ou clima em que são moldadas a resolução do drama e a epifania da lei que se manifesta. White considera que este modo mecanicista de explicação da história é utilizado por Spengler e por Marx, já que ambos justificam o enredo trágico, sendo que no primeiro a tendência social é de acomodação e no segundo é heroísmo e militância. Afirma ainda que esta seria o mesmo tipo de diferença encontrada entre as tragédias euripidiana e sofocliana ou entre o Rei Lear e Hamlet de Shakespeare (p. 41-2);
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- Para fins de ilustração, cita alguns historiadores:
- Ranke, seria “vazado”, segundo um enredo cômico. Isto por que o seu tema central é a reconciliação. O modo de explicação por ele utilizada foi o organicista, pois busca as estruturas e processos integrativos, sendo estes os modos fundamentais de relação encontrados na história. Segundo White, a preocupação de Ranke não estava na descoberta de leis, mas sim das ideias dos agentes e agências históricas. A combinação entre enredo cômico e modo organicista levam a implicações ideológicas conservadoras. As formas apresentadas por Ranke apresentam, assim, o desfecho harmonioso da comédia, mas o leitor contempla esta harmonia no campo histórico como estrutura concluída de ideias (instituições e valores), fazendo concluir que se habita o melhor dos mundos históricos possíveis, ou pelo menos o que se pode “realisticamente” achar que exista, dado o relato histórico feito por Ranke (p. 42);
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- Burckhardt era contextualista, explicando os eventos na rica trama das individualidades discrimináveis. Negava tanto a possibilidade de se inferir leis quanto a submissão à análise tipológica, sendo sua obra Civilização do Renascimento considerada sem “estória” e vazada no modo narrativo da sátira, pois este é o tipo ficcional da ironia e que recusa oferecer os tipos de coerências formais da estória romanesca, da tragédia e da comédia. Aliás, o modo narrativo da sátira se aproxima de uma perspectiva cética de conhecimento, apresentando como proposta anti-ideológica, oposta, portanto, às concepções de filosofia da história, tais como as de Marx e Hegel, ou Ranke, este último desprezado pessoalmente por Burckhardt (p. 42-3);
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- A narrativa satírica, no entanto, possui ela própria as suas implicações ideológicas, que podem ser consideradas liberais se o tom for otimista e conservadores se o tom for resignado. A questão levantada por Burckhardt de campo histórico como textura das entidades individuais reunidas está associado ao seu ceticismo formal, desencorajando o uso da história para a compreensão do mundo atual senão em termos conservadores (p. 43).

domingo, 19 de setembro de 2010

Resenha – White, Hayden. Meta História – Introdução (p. 26-36)

Obra: White, H. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. Tradução de José Laurênio de Melo. 2 ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.

Obs: Para ler a primeira parte desta resenha, acessar a postagem Resenha - White, Hayden. Meta-História - Introdução (p. 23-26), de 29 de julho de 2010.

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Explicação por argumentação formal

- Enquanto o item anterior tratou do enredo utilizado no relato narrativo, este item tratará de outro nível de análise que é o da finalidade ou o do significado. Este tipo de explicação por argumentação faz uso do argumento nomólógico-dedutivo, pois a premissa maior apresenta a lei putativamente universal de relações causais, a premissa menor as condições de limite em que a lei é aplicada e a conclusão de que os eventos realmente ocorridos são deduzidos da premissa (p.26);
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- Distingue-se do modo como o historiador põe enredo em sua estória, pois naquele caso a estória é compreendida como de um tipo particular, fazendo com que os eventos ganhem uma coerência formal, tal como um cientista que identifica elementos nomológicos-dedutivos a partir dos quais fornece suas explicações. No caso da argumentação formal temos os elementos da matriz causal, que se presumem terem ocorrido em região específica de espaço e período específico de tempo. White, assim, assume a ideia de que o historiador faz, ao mesmo tempo, arte e ciência, apesar de podermos distinguir a representação “do que aconteceu” do “por que aconteceu como aconteceu”, da escolha de uma narrativa que apresente o caminho segundo o qual se passou de uma situação a outra recorrendo a leis de causação (p. 27);
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- A história, no entanto, distingue-se das ciências porque os historiadores discordam justamente com relação a quais leis regeriam a causação social, leis sociais estas que serão invocadas para explicar certa sequencia de eventos. Enquanto as ciências naturais parecem avançar por meio de acordos quanto aos problemas científicos, a forma de explicação que devem assumir e os dados que podem ser considerados provas para a descrição científica da realidade, entre os historiadores não há concordância quanto a explicação histórica de qualquer conjunto de fenômenos históricos considerados. Sendo assim, a história recorre a diferentes pressupostos meta-históricos sobre a natureza do campo histórico, gerando diferentes tipos de explicação (p. 27-8);
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- Seguindo Stephen C. Pepper (World hypotheses: a study in evidence) diferencia quatro paradigmas que apresentam o que é uma explicação histórica, considerada como argumento discursivo: formista, organicista, mecanicista e contextualista (p. 28);
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a) Teoria formista da verdade: identifica as características dos objetos relativos ao campo histórico, sendo que a sua explicação está completa quando os objetos foram identificados nos atributos de classe, genéricos e específicos. Procura dissipar a identidade de todos os objetos do campo. Historiadores que lidam com essa perspectiva: Herder, Carlyle, Michelet dentre os historiadores romanescos e Niebuhr, Mommsen e Trevelyan entre narradores históricos. O objetivo central do trabalho do historiador é o próprio objeto, descrito em toda a variedade, colorido e vividez (p. 29);
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- Na Nota 7, White afirma que as considerações que fez em relação a Frye na nota 6 aplicam-se aqui a Pepper e suas formas básicas de reflexão filosófica. Ressalta que filósofos como Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, Hegel, Mill não se reduzem aos arquétipos definidos por Pepper. No entanto, quando os historiadores falam como filósofos, invocando alguma ideia geral em relação ao ser, tratam de teoria geral de verdade e de verificação. Neste sentido, os filósofos da história são mais “cognitivamente responsáveis” do que os historiadores, pois estes apenas adotam uma visão de mundo (p. 29);
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- Segundo White, Pepper considera o formismo eminentemente dispersivo, pois em suas operações analíticas não se dispõe a realizar a integração, como é o caso de explicações organicistas e mecanicistas. Sendo assim, é ampla em seu alcance, mas as generalizações dos processos carecem de precisão conceitual (p. 30);
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b) Hipóteses organicistas do mundo: são mais integrativas do que a formista e mais redutivas em suas operações. As descrições dos pormenores históricos são feitos com base em componentes sintéticos. Existe um compromisso metafísico com o paradigma a relação entre o microscópio-macroscópico, sendo as entidades individuais componentes que se agregam em totalidade maiores ou qualitativamente diferentes do que a soma de suas partes. Exemplo de historiador que opera nesta estratégia é Ranke e a maioria dos historiadores nacionalistas, das décadas dos meados do século XIX Von Sybel, Mommsen, Treitschke, Stubbs, Maitland etc. Também idealistas tais como Hegel (p.30);
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- Pepper considera que tais historiadores estão mais interessados em caracterizar o processo integrativo do que os elementos individuais, dando o caráter abstrato aos argumentos. Ranke, por exemplo, resiste à ideia de fornecer um telos do processo histórico, mas oferece teloi provisórios e estruturas intermediárias, como “povo, nação e cultura”. White afirma que Ranke descreve eventos em sua particularidade e, neste sentido, seria representante do formismo. Mas, dada à estrutura e a coerência formal em suas explicações dos processos recorre ao modelo organicista (p. 31);
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- As estratégias organicistas evitam a busca de leis do processo histórico, se estas são entendidas como relações causais universais e invariantes, tais como a física newtoniana, a química lavoisieriana ou a biologia darwiniana. Trata de princípios e ideias ao invés de leis, sendo aquelas que informam os processos, exceto os que orientação religiosa ou teológica que definem aqueles como agentes causais (p. 31);
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c) Teoria mecanicista: também são integrativas dos objetivos , mas propensas a reduções e não a sínteses. Busca as leis causais que determinam os resultados dos processos no campo histórico, que governam a interação entre partes. Exemplos de mecanicistas: Buckle, Taine, Marx, Tocqueville (p. 30-2);
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- O mecanicista da mesma maneira que o organicista é ameaçado pela mesma tendência para a abstração. Isto por que as entidades individuais perdem importância em relação às classes às quais pertencem e que, por sua vez, manifestam as regularidades presumidas nas leis. Tais leis representam aquilo que o mecanicista considera como explicação histórica e governam a história, tal como as leis da física governam a natureza (p. 32);
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- Também os mecanicistas, tal como os organicistas, podem ser acusados de falta de alcance e de tendência para abstração. Partindo da perspectiva formista, mecanicismo e organicismo são redutores da variedade e do colorido das entidades individuais. Porém, resgatar esta extensão e concretude, além da opção do formismo, também está presente o contextualismo, cuja teoria da verdade e da explicação se apresenta como funcional do sentido ou da significação dos eventos do campo histórico (p. 32);
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d) Contextualismo: considera que os eventos são explicados na medida em que são inseridos no seu próprio contexto, revelando relações específicas que guardam com outros eventos. Aqui, diferentemente do formismo que considera entidades em sua particularidade e unicidade, o contextualista concentra-se nas inter-relações funcionais entre os agentes e agências. Exemplos de filósofos modernos que adotam esta perspectiva são W. H. Walsh e Isaiah Berlin (chamam as inter-relações funcionais de coligação). Historiadores de Heródoto a Huizinga também, porém com mais expressividade em Jacob Burkhardt (séc. XIX) (p. 33);
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- Procura evitar a tendência dispersiva do formismo e as abstrativas do organicismo e do mecanicismo. Como se referem a períodos determinados da história, suas explicações não tem caráter de leis universais, tais como as propostas pelo mecanicismo, nem mesmo princípio teológicos gerais propostos pelos organicistas. São interpretadas como relações reais, presumidamente existentes em tempos e lugares específicos, mas cuja causa primeira, final ou material não podem ser conhecidas (p. 33);
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- Segundo Pepper o contextualista avança pelo isolamento de elemento do campo histórico como assunto de estudo, que pode ser tão amplo como a “Revolução Francesa” ou tão restrito quanto o dia de uma pessoa. As explicações (fios) que ligam o evento são tecidos em vários elementos do contexto, estendidos para fora (em direção ao espaço natural e social) e para trás determinando as origens do evento e para frente determinando seus impactos e influências (p.33);
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- O enfoque contextualista é, assim, uma combinação da tendência dispersiva do formismo e integrativa que informa o organicismo, mas pretende ser modesta na medida em que o fluxo do tempo é considerado “ondulatório”, ou seja, com fases e culminâncias mais importantes que outras, tornando predominante a ideia de desenvolvimento e a evolução. Esta estratégia sincrônica de representação inclina-se ao mecanicismo ou ao organicismo quando tenta relacionar diferentes períodos estudados (p. 34);
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- Séc. XIX, com a academicização há predominância do formismo e do contextualismo. Tendências organicistas e mecanicistas, como as representadas por Ranke e Tocqueville são consideradas lapsos em relação àquilo que a explicação histórica deve ser. Ou ainda, a explicação do campo histórico como as de Hegel e Marx, consideradas como queda na filosofia da história. O livro de Karl Popper Poverty of historicism denuncia exatamente estes dois modos de explicar o pensamento histórico (p. 34-5);
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- Para White, a razão esta hostilidade dos historiadores em relação aos modos de explicação organiscista e metanicista permanece obscuro, a não ser que se busque razões extra-epistemológicas. Admitida a natureza protocientífica dos estudos históricos não há fundamento apodítico para a preferência em relação a um dos modos de explicação (p. 35);
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- Há historiadores que defendem a posição de que a história deve se tornar científica, afastando, portanto, as influências do mito, da religião e da metafísica, o que implica afastar da prática historiográfica os posicionamentos organicista e mecanicista. Limitando-se, assim, aos modos formista e contextualista, a história permaneceria empírica, resistindo à filosofia da história como as praticadas por Hegel (organicista) e Marx (mecanicista) (p. 35);
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- White considera, porém, que uma vez que a história é apenas uma protociência, essa hostilidade com o organicismo e com o mecanicismo não expressa mais do que um preconceito por parte do estabelecimento profissional. Estas estratégias apontam para elementos dos mundos natural e social que não podem ser apreciados a partir da perspectiva formista ou contextualista e, portanto, o comprometimento exclusivo com as dispersões próprias do formismo e do contextualismo isenta os historiadores da tentativa de integração dos dados própria das duas outras estratégias e implicam uma forma que a história deve assumir (p.35);
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- Os críticos mais radicais dessa escolha apresentam-na como ideologicamente motivada. Por exemplo, para os marxistas, seria o modo de manutenção dos grupos sociais estabelecidos, pois a utilização do modo mecanicista de explicação histórica mostraria as leis reais do processo e da estrutura histórica, expondo o poder desfrutado pelas classes dominantes (p. 35);
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- Assim, a concepção de história concentrada nos eventos individuais e suas relações com o contexto imediato apresenta vantagem para os grupos dominantes, pois enfatiza o individualismo dos liberais e as concepções hierárquicas dos conservadores. Por outro lado, os historiadores liberais também consideram as demais estratégias como ideologicamente motivadas, pois afirmam que as leis encontradas apontam para formas de transformação social em direção radical ou reacionária. Do mesmo modo, os filósofos idealistas quando apresentam o sentido da história (p. 36);
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- Deste modo, parece haver elemento ideológico em todo relato histórico da realidade, o que, segundo White, decorre do fato de que a história não é uma ciência, sendo no máximo uma protociência com elementos não-científicos determináveis na sua constituição e que levam para diferentes concepções sobre o “presente”, podendo levar a diferentes possíveis projetos de como manter ou mudar sua forma (p. 36).