domingo, 22 de agosto de 2010

Micro-história, Etnografia, Jornalismo e Internet



A postagem a seguir tem como base o capítulo 2 da obra O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa de Robert Darnton. Na verdade, seria mais correto afirmar que tecerei algumas reflexões a partir da obra, aplicando o que considerei ser o método historiográfico do autor ao nosso contexto contemporâneo em que a construção coletiva de nossa compreensão de nós mesmos e do mundo está, entre outros, fundado no jornalismo (televisivo, impresso ou virtual) e na internet.
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O capítulo 2 trata de episódio ocorrido no final da década de 1730 na gráfica situada na Rua Saint-Séverin em Paris e narrado pelo operário Nicolas Contat, que trabalhava neste local. O episódio em questão é um massacre de gatos levado a cabo pelos funcionários da gráfica após decisão do dono do local, a despeito do reconhecido amor que sua esposa nutria por um gato em especial: la grise. No entanto, esta decisão fora tomada em função das noites mal dormidas, devido ao fato de dois aprendizes - Jerome (o próprio Contat) e Léveillé -, cansados do tratamento que recebiam em seu local de descanso (a própria gráfica), subirem ao telhado do patrão e fazerem várias imitações de gatos, levando os patrões a mesma deficiência de descanso que eles mesmos tinham pela ação de verdadeiros gatos, que miavam e urinavam sobre o teto onde tentavam dormir todas as noites.
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O massacre dos gatos, então, é tomado por Darnton como uma expressão de relações sociais desiguais, devido ao contraste observado pelos aprendizes de que eles recebiam menos cuidado e atenção do que os gatos, os quais eram bastante apreciados como bichos de estimação pelos burgueses da época. Por outro lado, Darnton está interessado no significado cultural de matar gatos, especificamente este bicho e não outro, na França do século XVIII. E, além disso, mostrar que este episódio em particular guarda relação com o contexto geral da época, generalizando sua análise a partir da aplicação do método histórico-etnológico. Apenas para deixar os termos mais claros, a etnologia é um método de análise da cultura que parte das próprias práticas sociais e do que os participantes falam dela, para a definição de como aquela sociedade ou grupo social se autocompreende.
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Retornando para a análise de Darnton, resumirei a seguir suas conclusões. Com relação ao aspecto social, destaca o contraste entre a vida do aprendiz antes, no que chama de era de ouro, e na época do massacre dos gatos. No primeiro caso, havia igualdade e liberdade entre os tipógrafos com suas leis e tradições, para a situação em que empregados sem qualificação eram contratados, ameaçando o emprego dos mais qualificados. Com relação ao significado do gato, ele estava relacionado ao misticismo e a analogia com a animalidade do homem. Quanto ao primeiro aspecto, destacam-se práticas de alejar gatos por se acreditar que apenas assim era possível neutralizar o servo de uma bruxa e expressava a animalidade na medida em que estava relacionado a sedução e a sexualidade. E, com relação ao contexto mais amplo a que o episódio estaria conectado, podemos relatar os episódios de folia e de abstinência, representados respectivamente pelo carnaval e pela quaresma, o primeiro dos quais leva a expressão da violência e insatisfação contidos que foram clarificados em 1789 (Revolução Francesa).
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Estes elementos bastam para a reflexão em seguida, embora considere mais recomendável a leitura do capítulo, pois tive que tratar de modo sumário teses que Darnton desenvolve pormenorizadamente. Quanto às reflexões que gostaria de propor, elas são três: com relação a Micro-história, à quantidade de informações acessíveis e à velocidade na sucessão delas contemporaneamente, bem como o impacto destes dois para a compreensão atual de cultura. Primeiramente, a Micro-história lida com a aproximação em relação aos eventos particulares, o que indica seu afastamento em relação a generalizações precipitadas, que não permitiriam a percepção do agente histórico, por exemplo, e buscando o detalhe próprio de cada ação ou narrativa. Quando esta análise se restringe a fontes restritas de eventos passados, parece-me que o segundo passo da análise é justamente a generalização, como Darnton fez ao extremo de relacionar o episódio dos gatos à Revolução Francesa, como expressão que o massacre seria dos ciclos carnavalescos da cultura francesa do século XVIII.
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A questão é que, pensando os meios de comunicação disponíveis, tais como a televisão, o jornal e a internet, somos bombardeados por informações, algumas propagandeando produtos, outras com interesse de nos atualizar quanto a vários aspectos da vida, como o futebol, a política e o entretenimento. Aplicando o método histórico-etnográfico para a situação contemporânea, realizando então o que poderia ser propriamente chamado de crônica, seríamos obrigados a lidar com quantidade grande de informações que, sem as generalizações, provavelmente nos levariam a não compreender nem o sentido dessa sucessão, nem as nossas próprias vidas, nem a relação que guardamos com o mundo que nos rodeia. Deste modo, poderíamos afirmar que a fragmentação dos eventos em pedaços mínimos pode nos levar à experiência do sem sentido, por uma limitação humana de não conseguir lidar com todos os detalhes possíveis de cada aspecto nosso e do mundo. Assim, parece-me que alguma estabilidade é necessária na mudança. Ao invés de responder, então, deixo a pergunta: afinal, o que é nossa cultura contemporânea?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Comentários sobre a Relação entre o Tempo e a Consciência - Parte 2

Conforme anunciado na Parte 1 desta postagem, aqui me dedicarei a alguns comentários especialmente direcionados a questão dos dispositivos que reagem a corruptibilidade do tempo. Começarei indicando como conceituo e interpreto a relação entre o instinto, o hábito, a memória, o esquecimento e a consciência, direcionando-me ao que parece ser o ponto chave de minha análise, que é a questão da centralidade da consciência em relação aos outros dispositivos.
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Com relação aos conceitos e às relações entre os dispositivos, considero que o instinto seria o desencadeador da reação ao tempo. Uma vez que a passagem do tempo é experienciada e que, nesta experiência, coisas e pessoas passam a existir e deixam de existir, como no caso extremo do nascimento e da morte, o instinto seria a percepção de que também se está sujeito a esta corrupção, mas é preciso de algum modo reagir a ela. Assim, a percepção, apesar de honesta é desmotivadora, pois reconhecer-se vinculado necessariamente a corrupção promove o sem sentido das coisas. Afinal, no decurso do tempo somos obrigados a passar por situações extremas de dor e de sofrimento, que parecem fazer sentido apenas se conseguimos relacioná-las a algo exterior ao próprio sofrimento, que pode ser uma lembrança ou algo que se aprendeu com ele. Resumidamente, consideramos que o instinto é uma reação a percepção da sujeição do indivíduo a corruptibilidade, que age em prol de sua própria preservação. Vermos a seguir o que se quer preservar através das ações.
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Antes de informar o que no fundo se quer preservar, gostaria de ressaltar os três modos de reação a percepção da própria corruptibilidade ou do sem sentido do mundo. O primeiro modo de reação seria o hábito, que se concretiza por meio de ações repetidas que mascaram a falta de sentido, dotando de continuidade os eventos que simplemente ocorrem no tempo. Neste ponto incluiríamos a cultura, pois a formação recebida desde o nascimento e a própria repetição de seus elementos serve de indício de permanência ao indivíduo, que percebe-se, então, conectado à cadeia que vai além do seu próprio aparecimento no mundo. Ou seja, toda a tradição que recebe em sua formação, serve como indício da continuidade que a sua percepção não abarca, pois seu aparecimento no mundo e no tempo começa e termina de modo abrupto. Porém, os elementos tais como a cultura e as instituições parecem, em todo o caso, ter uma existência senão eterna, pelo menos com duração mais longa que a do indivíduo. Esta forma de reação que o hábito promove, pressupõe a relação do indivíduo com elementos do mundo, cuja estabilidade vai além do tempo de vida do próprio indivíduo.
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O segundo modo de reação é a memória, que pode ser observada tanto da perspectiva individual, como da coletiva (aliás, como todas as formas de reação a corruptibilidade do tempo, mas me parece mais importante ressaltar aqui esta dupla perspectiva). De um ponto de vista individual, seria a percepção das próprias experiências que ocorreram no presente e, portanto, foram experiência atual, mas agora pertencem a um passado. No entanto, do ponto de vista coletivo, pode se confundir com o hábito, pois repetir elementos da cultura ou das instituições, é uma forma de rememorá-las. Como afirmamos na primeira postagem o esquecimento é o outro da memória e, portanto, não podemos falar de um sem tratar do outro, sendo o esquecimento o terceiro modo de reação. De modo simplificado, a memória procura preservar, pela lembrança periódica, certos eventos que não pertencem mais ao tempo presente, enquanto o esquecimento é o esforço contrário, ou seja, de relegar ao passado algo de que não se quer lembrar. Nestas duas formas de reação, parece estar presente um elemento de escolha (ou discricionariedade) e, como as escolhas estão relacionadas a nossa compreensão do que consideramos positivo (e, portanto, digno de lembrança) e do que consideramos negativo (e, portanto, indigno de lembrança), é preciso tratar de como se forma a consciência, que preside este processo de seleção.
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Uma vez que se assuma que a consciência não é somente capaz (como é) de se mover através do passado, do presente e do futuro, mesmo que deste último não tenha conhecimento pleno e realizando apenas uma projeção, seria interessante notar que é neste dispositivo que também se encerra a capacidade de organização do sentido de continuidade em relação aos eventos. Isto porquê, como vimos, o instinto é a percepção mais crua e direta da corruptibilidade e do sem sentido sugerido pela mera sucessão dos eventos. O instinto é, assim, o motor (motivador) da reação que ocorre através do hábito, da memória e do esquecimento. Mas, estas formas de reação seriam completamente aleatórias, não fosse o fato de que a consciência, que aqui estou tomando como sinônima de psique em sentido amplo, é educada e, portanto, tendente a fazer certos tipos de avaliação e de escolhas, e não toda e qualquer avaliação e escolha. Assim, o relativismo epistêmico a que estarímos pressionados a assumir no caso da concentração na percepção instintiva que temos das experiências cotidianas, dá lugar a percepção de alguma continuidade e algum sentido, cuja sede está na consciência, por ser este o dispositivo capaz de se apartar do presente.
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Assim, em que pese a capacidade da consciência de se mover entre o passado, o presente e projetar-se para o futuro, ela não é independente da historicidade e não deve, portanto, ser tomada de modo absoluto, como a solução definitiva dos problemas suscitados pela percepção da corruptibilidade. Aliás, como anunciamos, considero que aquilo que o instinto parece querer preservar em última instância é a própria consciência, pois o lado mais trágico da capacidade humana de perceber sua própria sujeição ao tempo, é saber que o esforço de atribuição de sentido ao mundo pode simplesmente terminar, de modo abrupto, quando da corrupção a que está necessariamente obrigado. Observe-se, no entanto, que não estou afirmando que esta dissolução da consciência ocorrerá, pois isso seria projetar-me a um futuro sem base alguma. O que quero ressaltar é que a própria possibilidade de que essa corrupção fatal ocorra é o desencadeador da reação à ação corrosiva do tempo.

sábado, 7 de agosto de 2010

Comentários sobre a Relação entre o Tempo e a Consciência - Parte 1


Oo.O.oO


Os comentários a seguir têm como base o fichamento inicial que fiz do Capítulo 1 da obra O fio e a trama: reflexões sobre o tempo e a história de Ivan Domingues. Gostaria, no entanto, de me concentrar em um ponto específico deste fichamento, que é a relação estabelecida entre o tempo e a consciência. Desta maneira, iniciarei com a contextualização dos elementos apresentados pelo autor, seguido de meus comentários na Parte 2 desta postagem.
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Domingues afirma que Dilthey (Introdução às ciências do espírito) considera que a nossa experiência em relação ao tempo tem relação com a intuição do efêmero, que se expressa pela percepção da corrutibilidade da natureza, da fragilidade da existência, da precariedade das instituições sociais e do ciclo a que o homem está sujeito de nascimento, crescimento e morte. Enquanto os primeiros elementos se referem especialmente a caducidade das coisas, este último atinge diretamente ao homem de modo inclemente. Esta experiência em relação ao tempo que leva a necessidade de dotá-la de sentido, mesmo que sem que seja possível resolver completamente o enigma do tempo.
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No entanto, Domingues afirma que a busca de um ponto fixo, ou seja, daquilo que é permanente em resposta a corruptibilidade das coisas não é apenas uma necessidade racional, que permite pensar o móvel, como queria Dilthey. Domingues considera que esta intuição do efêmero tem impacto mais profundo no homem, que, segundo ele, suporta mal a ideia do efêmero, fazendo o possível para afastar de si o sofrimento, a decadência e a morte.
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Baseando-se em literatura antropológica e histórica dos homens arcaicos, gregos e judaico-cristãos, afirma que o que é ressaltado é justamente o lado trágico do tempo, tal como Cronos que devora os próprios filhos, o que mostra que o tempo é mais temido do que desejado, e levando a que os homens tentem evadir-se da História, colocando-se na eternidade, ao abrigo da ação corrosiva do tempo.
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Domingues conclui, assim, que a experiência humana em relação ao tempo é formada por uma díade: a intuição do efêmero e o desejo de eternidade. E, para tratar filosoficamente deste tema, apoia sua análise na antropologia e na história da religião, em especial referindo-se às obras de Mircea Eliade O mito do eterno retorno e em filosofia Ferdinand Alquié O desejo de eternidade e Krzysztof Pomian A ordem do tempo.
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Domingues afirma, com Alquié, que os dispositivos que o homem possui para proteger-se do tempo são o instinto, o hábito, a memória, o esquecimento e a consciência, passa à explicação de cada um deles. Quanto ao instinto, que seria uma espécie de automatismo em relação ao passado e repetição no presente, e ao hábito, que seria o passado pesando sobre o presente e fixado no presente. Estes dispositivos seriam a forma de se insurgir contra o imprevisto, procurando colocar continuidade na ordem do tempo, incluindo o modo de ser dos homens e a permanência das coisas humanas.
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Quanto à memória, esta seria a faculdade do eterno no presente, conservando o passado que se adere aos homens. Esta faculdade permite a reconciliação com a História, através da reinterpretação do passado, dando novo sentido ao que está aparentemente morto. Já o esquecimento, o outro da memória, pode ser realizado em sua ação negativa ou positiva. Negativamente, é a atividade de apagar, ou ao menos empalidecer ou esvaziar o passado. E, positivamente, é lembrar e guardar na memória o que são os "gestos inaugurais", guardando-os na memória, esquecendo-se do que é passível de ação corrosiva do tempo, ou seja, o novo, o imprevisto e o efêmero. Finalmente, com relação à consciência, esta seria a faculdade do eterno por excelência, pois se desprende da cadeia temporal, movendo-se entre passado, presente e futuro.
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Na Parte 2 desta postagem apresentarei alguns comentários, especialmente sobre os dispositivos para que o homem possa estar ao abrigo da ação corruptiva do tempo.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Resenha - White, Hayden. Meta-História - Introdução (p. 23-26)

Obra: White, H. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. Tradução de José Laurênio de Melo. 2 ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.

oo..O..oo

Explicação por elaboração de enredo

- Define o sentido da estória pela elaboração do enredo. Segundo White existem quatro formas de elaboração do enredo: a estória romanesca, a tragédia, a comédia e a sátira (irônica). Sendo que o historiador é obrigado a organizar todo o conjunto de estórias do enredo em forma abrangente ou arquetípica (p. 23).
a) Estória romanesca: drama de auto-identificação simbolizado pela aptidão do herói para transcender o mundo da experiência, vencê-lo e libertar-se dele – redenção (p.24);
b) Sátira: oposto a estória romanesca, homem é entendido como cativo do mundo, sendo a consciência humana é incapaz de sobrepujar a morte, seu inimigo inefatigável – disjunção (p. 24);
c) Comédia: tanto quanto a tragédia aponta a possibilidade de libertação, pelo menos parcial em relação ao mundo, alívio provisório em relação à disjunção. Demonstra a possibilidade de vitórias passageiras através da reconciliação entre as forças naturais e sociais, indicadas pelas situações festivas utilizadas ao final de narrativas dramáticas posteriores a mudanças ou transformações – reconciliação (p. 24);
d) Tragédia: indica que o estado de divisão entre os homens é ainda maior do que o agon que iniciou o drama. No entanto, a queda do protagonista e o abalo do mundo em que habita não são considerados ameaçadores para os que sobrevivem a prova agônica. Por outro lado, os que assistem ao protagonista consideram que houve ganho de conhecimento, relacionado a epifania em relação a lei regeneradora da existência humana, que a luta do protagonista contra o mundo produziu – reconciliação/metamorfose (p. 24);
- As reconciliações são de natureza diferente: na Comédia a reconciliação é do homem com os outros homens, dos homens com seu mundo e sua sociedade. Os elementos inicialmente irreconciliáveis mostram-se ao fim harmonizáveis, unificados, concordes consigo mesmos e com os outros. Já na Tragédia, há muito mais a característica de resignação do homem com as condições dadas no mundo (reconciliações “sombrias”), que se declaram inalteráveis e eternas, limitando o que pode ser visado na busca de segurança e equilíbrio no mundo (p. 24-5);
- Estória romanesca e sátira são mutuamente exclusivos. Mas, é possível falar de sátira cômica, comédia satírica ou ainda tragédia satírica e sátira trágica. Comédia e tragédia, assim, representam restrições a percepção romanesca do mundo (p. 25);

Comédia e tragédia representam restrições à percepção romanesca do mundo, considerada como um processo, no interesse de levar a sério as forças que se opõem ao esforço de redenção humana ingenuamente sustentado como uma possibilidade para a humanidade na estória romanesca. A comédia e a tragédia levam o conflito a sério, mesmo que aquela resulte numa visão da ulterior reconciliação de forças opostas e esta numa revelação da natureza das forças que se opõem ao homem. E é possível, para o autor romanesco, assimilar as verdades da existência humana reveladas respectivamente na comédia e na tragédia dentro da estrutura do drama de redenção que ele imagina em sua visão da vitória final do homem sobre o mundo da experiência (p. 25).

- No caso da sátira, ela representa um tipo de restrição diferente em relação a estória romanesca, pois “(...) observa essas esperanças, possibilidades e verdades ironicamente, na atmosfera gerada pela percepção da inadequação última da consciência para viver feliz no mundo ou compreendê-lo completamente. A sátira pressupõe a inadequação última das visões de mundo dramaticamente representadas tanto no gênero da estória romanesca quando nos gêneros da comédia e da tragédia. Como fase na evolução de um estilo artístico ou de uma tradição literária, o advento do modo satírico de representação assinala uma convicção de que o mundo envelheceu” (p. 25). White afirma ainda que a sátira afirma como inadequada sua própria representação do mundo e, além disso, prepara a consciência para o repúdio a conceptualizações rebuscadas do mundo, antevendo retorno e percepção mítica do mundo e de seus processos (p. 25).

domingo, 18 de julho de 2010

Resenha: A Tensão Essencial









Obra: Kuhn, T. The essential tension: tradition and innovation in scientific research. In: The essential tension. Chicago: University of Chicago Press, 1985. pp. 225-39.



O.o.O



Apresentação
A obra A estrutura das revoluções científicas (1962) de Thomas Kuhn trata do modo como a ciência se desenvolve, apresenta dois sentidos distintos de mudança científica. O primeiro, que ocorre na ciência normal, é concebido como acréscimo de conhecimento ao conjunto anteriormente existente, através da aplicação do paradigma. Já o segundo ocorre justamente pela mudança do paradigma científico, na chamada revolução científica. O texto resenhado, posterior as ideias apresentadas por Kuhn na Estrutura, aponta de modo mais evidente a relação entre as duas formas de mudança na ciência, que tem como consequência o fato de que a análise do desenvolvimento não pode nem prescindir, nem dar preferência a um dos elementos em tensão, ou seja, a tradição e a inovação científica.

Resenha
1) Kuhn afirma que sua tese principal é a de que nas ciências (e aqui está pensando fundamentalmente nas ciências naturais), é melhor lidar com as ferramentas que se tem a mão do que parar para contemplar diferentes abordagens (p. 225), afirmação esta que aparentemente contradiz a tese mesma esboçada no título, que remete a tensão e a inovação;

2) No conjunto de conferências do qual participou e cujo tema central era a personalidade criativa e modos de sua identificação, os trabalhos apresentam certa imagem de progresso científico e do cientista, da qual tratou de um aspecto: que o cientista básico deve se restringir a fato e conceitos sem que necessariamente concorde com eles, o que permite que sua imaginação trabalhe com probabilidades improváveis (p. 225-6);

3) Adiante, Kuhn afirma que mostrará que o avanço científico depende tanto do pensamento convergente, quando do pensamento divergente, sendo este tão essencial quando o outro (p. 226);

4) Assim, as revoluções científicas representadas pelos exemplos históricos do copernicanismo, darwinismo ou einstainianismo, não são apenas inclusões no desenvolvimento normal da ciência, pois:

Para assimilá-las o cientista deve usualmente rearrumar os equipamentos intelectuais e manipulativos em que ele previamente baseou-se, descartando alguns elementos da crença e prática prévia enquanto encontra novos significados e novas relações entre outros elementos. Porque o antigo deve ser reavaliado e reordenado quando assimila o novo, descoberta e invenção nas ciências são usualmente intrinsecamente revolucionárias (p. 226-7).

5) Deste modo, as revoluções científicas são um de dois aspectos do avanço científico. Sua contraparte, a ciência normal, é a atividade convergente baseada no consenso adquirido da educação científica e reforçado pela vida profissional. Por este motivo, Kuhn trata desta relação como “tensão essencial”, sendo que os cientistas devem apresentar característica tanto do tradicionalista, quando do iconoclasta (p.227).

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Resenha - White, Hayden. Meta-História - Introdução (p. 17-23)

Obra: White, Hayden. Meta-história: a imaginação poética do século XIX. Tradução de José Laurênio de Melo. 2 ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008. Introdução (p. 17-23).

oo..00..00

Introdução: a poética da história

- Livro é uma história da consciência histórica na Europa no século XIX, mas quer contribuir para o problema do conhecimento histórico através da exposição da sua estrutura geral (p. 17);
- A questão do significado do pensar histórico e dos métodos especificamente históricos foi pensado no século XIX por historiadores, filósofos e teóricos sociais, no contexto geral de que era possível atribuir respostas inequívocas. Diferentemente do século XX em que há o receio de que não existam tais repostas definitivas (p. 17).
- Pensadores da Europa continental – de Valéry e Heidegger a Sartre, Lévi-Strauss e Michel Foucault – expressaram dúvidas sobre pensamento especificamente histórico, apresentando o caráter eminentemente fictício das reconstruções históricas e contentando a possibilidade de a história figurar entre as ciências. Já os filósofos anglo-americanos produziram obras sobre a posição epistemológica e a função cultural da reflexão histórica, no entanto, quando tomada em seu conjunto parece contar a favor da ideia de que a história não é uma ciência rigorosa (p.18).
- Citação: “Essas duas linhas de investigação tiveram o efeito de criar a impressão de que a consciência histórica de que se orgulha o homem ocidental desde o início do século XIX talvez não passe de uma base teórica para a posição ideológica a partir da qual a civilização ocidental encara seu relacionamento não só com as culturas e civilizações que a precederam mas também com as que lhe são contemporâneas no tempo e contíguas no espaço” (p. 18). Referência a Foucault, The order of things.
- Tal visão teria a finalidade de fundamentar a superioridade da moderna sociedade industrial (p. 18).
- Em sua análise da imaginação histórica do século XIX, apresenta dois níveis: análise das obras da historiografia europeia e as dos principais filósofos da história do século XIX. Cujo objetivo geral é determinar as características de família das concepções de processo histórico e a justificativa dada pelos filósofos para a reflexão histórica. Para tanto, considera que a atividade histórica é a narrativa, que pretende ser modelo ou ícone de estruturas e processos passados, explicando o que são representado-os (p. 18).
- Outro elemento de sua proposta é que ela é formalista, ou seja, não está comprometida com a avaliação da melhor descrição de certo conjunto determinado de eventos, mas sim com a sua estrutura. Tal procedimento justifica a concentração em historiadores e filósofos, que ainda servem como modelos para conceber a história. Historiadores tais como Michelet, Ranke, Tocqueville e Burckhardt; e filósofos da história como Hegel, Marx, Nietzsche e Croce (p. 19).
- Sua situação como modelos de narração e conceituação histórica depende da natureza procedimental poética de suas perspectivas da história e de seu processo (p. 19-20).
- Cada uma das representações desses autores apresenta concepções alternativas e aparentemente mutuamente exclusivas em relação ao mesmo seguimento da história e das tarefas de reflexão histórica, devido aos diferentes aparatos conceituais usados para explicar os mesmos conjuntos de dados. Deste modo, é preciso identificar a estrutura típico-ideal da obra histórica que fornecerá o critério para determinar aspectos de qualquer obra histórica ou de filosofia da história. Além disso, é possível reconstruir as transformações operadas nestes modos e que formam a impressão explicativa de uma narrativa (p. 20).

A teoria da obra histórica

- Distinção em dois níveis de concepção da obra histórica: crônica, estória, modo de elaboração de enredo, modo de argumentação e modo de implicação ideológica. As duas primeiras remetem a elementos primitivos do relato histórico, caracterizando a seleção e o arranjo de dados extraídos do relato histórico não processado, tornando-os mais compreensíveis a determinado público (p. 21).
- Neste sentido a obra histórica seria a mediação entre o campo histórico, o registro histórico não processado, outros relatos históricos e um público (p.21).
- Primeiramente, os elementos do campo histórico são organizados em uma crônica pelo arranjo dos acontecimentos em determinada ordem temporal; depois a crônica é organizada em uma estória pelo arranjo dos eventos nos componentes de um espetáculo ou processo de acontecimento, cujo começo, meio e fim são discerníveis. Essa transformação da crônica em estória ocorre pela caracterização de alguns eventos da crônica em função de motivos iniciais (porque assim é caracterizado como tal), motivos de transição (suspensão do juízo do leitor até que se forneça motivo conclusivo) e motivos conclusivos (fim ou resolução visível de um processo ou situação de tensão) (p. 21).
- Citação: “Quando um dado conjunto de eventos é posto num código de motivos, o leitor tem diante de si uma estória; a crônica de eventos transforma-se num processo diacrônico concluído, a respeito do qual é possível então fazer perguntas como se se estivesse lidando com uma estrutura sincrônica de relações (p.21).
- Citação: “As estórias históricas constituem as sequencias de eventos que conduzem dos inícios aos términos (provisórios) de processos sociais e culturais, de modo que as crônicas não são obrigadas a fazer. A rigor, as crônicas têm finais em aberto. Em princípio não tem inícios; simplesmente “começam” quando o cronista passa a registrar os eventos. E não tem pontos culminantes nem resoluções; podem continuar indefinidamente. As estórias, porém, têm uma forma discernível (mesmo quando essa forma é a imagem de um estado de caos) que separa os eventos nelas contidos dos outros eventos que poderiam aparecer numa crônica abrangente dos anos cobertos em seus desdobramentos” (p.22).
- Afirma que a diferença apontada entre a estória e a ficção, fazendo entender que a estória está baseada inteiramente na crônica e que o historiador “acha” sua estória enquanto o ficcionista inventa a sua, obscurece a invenção que está implicada na tarefa do historiador, pois o mesmo evento pode ser utilizado em várias estórias diferentes a depender da função que se lhe atribui “numa caracterização motívica específica do conjunto a que ele pertence” (p. 22).
- Citação: “O historiador arranja os eventos da crônica dentro de uma hierarquia de significação ao atribuir aos eventos funções diferentes como elementos da estória, de maneira a revelar a coerência formal de um conjunto completo de eventos como um processo compreensível, com princípio, meio e fim discerníveis” (p. 22).
- O arranjo de eventos selecionados na estória suscita questões tais como: “o que aconteceu depois?”, “como isso aconteceu?”, “por que as coisas aconteceram desse modo e não daquele?”, “em que deu no final tudo isso?”, cujo ponto principal é a relação entre os eventos. Por outro lado, perguntas como: “que significa tudo isso?”, “qual a finalidade disso tudo?” tem a ver com a estrutura do conjunto inteiro de eventos considerando uma estória concluída, reclamando a relação entre dada estória e outras que poderiam ser “achadas”, “identificadas” e “descobertas” pela crônica. Tais perguntas podem ser respondidas de várias maneiras. Chama estas maneiras de explicação de elaboração de enredo, explicação por argumentação e explicação por implicação ideológica (p. 22-3).

domingo, 13 de junho de 2010

O papel do testemunho em Antígona e Édipo Rei de Sófocles



A propósito de uma enquete da comunidade "Literatura - Teoria e Crítica" do Orkut reli duas das peças de Sófocles: Antígona e Édipo Rei. Nelas, por alguma feliz coincidência, encontrei um elemento presente na historiografia e que me interessaria bastante aprofundar o seu sentido, que é o testemunho. Gostaria de ressaltar especialmente dois tipos de testemunho, que me pareceram em maior destaque em cada obra acima referida: o testemunho ocular e o testemunho auditivo, que poderia ser traduzido nas expressões "afirmo porque vi" e "afirmo porque ouvi dizer".

Primeiramente, um exemplo do testemunho ocular retirado da peça Antígona. Como sabemos, Antígona é filha de Édipo, o rei banido da cidade de Tebas após descobrir-se assassino do pai Laio e esposo a própria mãe, Jocasta. Porém, a sina de acontecimentos trágicos não findara com o banimento de Édipo, pois ao retornar a cidade, Antígona descobre que seus dois irmãos (Etéocles e Polinice) haviam morrido um pelas mãos do outro. Creonte, o rei de Tebas ordenara, então, que Etéocles fosse sepultado com todas as honras dadas àqueles que se dedicaram à defesa da cidade, enquanto que à Polidice, que ficasse insepulto a mercê de cães e aves carniceiras. Antígona, porém, reconhece nesta decisão do rei uma afronta a lei divina e que era seu dever sepultar o irmão, mesmo que pagando com a própria vida por sua desobediência.

O exemplo de testemunho ocular desta peça é dado pelos soldados que haviam sido designados por Creonte para impedir que qualquer pessoa se aproximasse do corpo de Polidice, a fim de sepultá-lo. Eis, então, que Antígona consegue burlar a segurança e promove as libações e o enterro do corpo irmão, sendo logo depois levada a presença do rei, para que ele profira a sentença fatal. É interessante notar que no diálogo entre o soldado que dará a notícia do sepultamento e o rei, este último em momento algum parece duvidar de seu testemunho. Talvez porque o soldado estava de fato imbuído da função de vigiar o corpo e, por outro lado, o próprio rei não estava presente no momento do sepultamento contrário a sua ordem e, portanto, não seria capaz de ele mesmo ter visto o acontecimento. Assim, dois elementos sobre o testemunho se apresentam neste primeiro exemplo: o primeiro, aquele que testemunha vê diretamente o acontecimento e depois o relata a um terceiro. E, segundo, aquele que fala, pelo menos no exemplo, é ouvido com a presunção de que fala a verdade. Presunção esta confirmada pela declaração de Antígona, confirmando o relato do soldado.

O segundo exemplo é retirado da peça "Édipo Rei" também de Sófocles e diz respeito ao testemunho auditivo. Esta história ocorre antes dos fatos narrados acima, provenientes da peça "Antígona", quando Édipo ainda era o rei de Tebas e não se sabia assassino do pai e esposo da mãe. Nesta ocasião, Tebas passava por terríveis acontecimentos, como a seca de suas plantações e a morte de mães ao dar a luz aos seus filhos. Intrigados com esta série de acontecimentos ruins, os cidadãos procuram o seu rei, para que ele encontre uma solução. Eis que Édipo, antecipando-se, já havia mandado Creonte ao templo de Apolo, para consultar o oráculo. Em seu retorno, Creonte afirma que a cidade passa por tais calamidades em virtude do assassinato de Laio e que apenas depois de descoberto o assassino a paz voltaria a reinar em Tebas.

O exemplo, neste caso, pode ser retirado de duas partes da peça. Tanto das palavras de Creonte, que estivera efetivamente no templo de Apolo e será capaz, através de suas palavras, de narrar a um terceiro, não o que viu, pois não testemunhara com seus olhos o assassinato de Laio, mas antes as palavras do oráculo. E, por outro lado, do próprio pedido de Édipo, de que os cidadãos que tenham algo a dizer sobre o assassinato, que se manifestem e tragam para o rei as informações necessárias para que o mesmo possa corrigir com justiça a morte que inspirava tantos males para a cidade. Nestes dois casos, também podemos extrair alguns elementos importantes do testemunho. Primeiro, que o testemunho auditivo, não é um acesso direto aos acontecimentos, e sim um contato indireto, através das palavras de outrem (mesmo que no primeiro exemplo explicitado, estejamos tratando das palavras de um deus, ditas através do oráculo). E, segundo, a verdade dos fatos, exceto no primeiro exemplo em que parece-me que se adotava a mesma presunção de verdade do testemunho ocular, não é dada diretamente, pois será ainda objeto de investigação.

Por fim, gostaria de fazer algumas comparações entre os elementos apresentados na análise do testemunho ocular e na do testemunho auditivo. Em ambos os casos, temos a apreensão dos eventos através dos sentidos, respectivamente, a visão e a audição. Por algum motivo que me escapa totalmente, parece-me que o testemunho visual apresenta um conteúdo de verdade mais evidente do que o testemunho auditivo, exceto, como explicitei, no caso do oráculo, em que há também presunção de verdade. Digo que o motivo de tal diferença me escapa, pois penso nas críticas epistemológicas ao empirismo, que, de certo modo, colocaram em descrédito a certeza naquilo que advém dos sentidos, críticas que podem ser lidas em filósofos tais como Descartes e Hume.

A segunda comparação que gostaria de explicitar decorre, de certo modo, desta posição de desconfiança em relação aos sentidos, pois tanto no caso do testemunho ocular, como no caso do auditivo, decorre sempre a necessidade de confirmação. No caso do testemunho do soldado, pois mais que possamos considerá-lo mais direto, pois ele viu o que se passou, podemos afirmar que a certeza se apresentou ao rei, quando Antígona confirmara que, de fato, enterrara o seu irmão. Por outro lado, no caso do testemunho do assassinato de Laio, houve uma primeira confirmação, ou seja, de que ocorrera um assassinato e que o autor do crime permanecia em Tebas, porém a informação seguinte, de quem era efetivamente o assassino, teria que ser confirmada a partir do testemunho dos cidadãos.

Apesar destas diferenças e sutilezas, parece-me que restaria pelo menos uma semelhança entre os testemunhos visual e auditivo. Ambos estão sujeitos a esta confirmação, que é, no entanto, indireta, pois apenas se mostra pela proferimento das mesmas informações sobre eventos, só que dados por diferentes pessoas. Caberia, então, pensar na importância deste elemento quantitativo (número de testemunhas) e não apenas qualitativo (conteúdo das afirmações) para que seja constituído publicamente a verdade em relação a determinado fato.