sábado, 21 de maio de 2011

Ensaio filosófico sobre o tempo motivado pela fenomenologia de Sartre

O tempo pode ser percebido de formas diversas, pelo menos é o que podemos deduzir a partir não apenas de nossa experiência cotidiana, em que afirmamos em certos dias que “aqueles 30 minutos do final do expediente de trabalho, parecem passar mais lentamente que o restante do dia” ou ainda “o tempo voa quando estamos nos divertindo”. Assim, parece que de modo essencial, travamos com o tempo uma relação subjetiva, que poderia ser descrita como uma relação entre a consciência (que é o “sujeito” percebe) e o tempo (que é o “objeto” percebido). Ao contrário dos dois exemplos acima expostos, parece que quando olhamos o relógio e vemos que são 10:00h, esse tempo é um dado objetivo. Sabemos que temos que chegar ao nosso trabalho no horário certo, caso contrário poderemos dar causa à dispensa por justa causa. Mas, será que o tempo possui em si mesmo essa independência em relação aos nossos modos de percepção?
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De forma mais direta, poderíamos afirmar que o tempo é comumente percebido como sucessão, ou seja, como antes e depois, entre um dado momento, percepção ou experiência “A” e um dado momento, percepção ou experiência “B”. Daí que, por comparação entre momentos A e B e motivados pela memória residual que temos em relação a A (supondo, neste caso, que A apareceu primeiro à minha consciência que B), afirmamos que A apareceu antes que B, estabelecendo entre A e B uma relação não necessariamente causal, mas certamente de sucessão. No entanto, outra consciência que percebesse B antes de A, poderia afirmar, então, que foi A que sucedeu B, e não o contrário como inicialmente havíamos afirmado. Como consequência, poderíamos ficar em dúvida de se A ocorre efetivamente antes que B ou se essa sucessão depende do sujeito ou consciência que percebe.
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Sartre pensou a relação entre o tempo da consciência e o tempo real, exemplificados no primeiro parágrafo, respectivamente, com a percepção mais lenta ou mais rápida do tempo e a leitura dos ponteiros do relógio, tentando distinguir dois mundos: o mundo das imagens e o mundo real. No centro da relação entre os dois mundos, poderíamos dizer está a consciência, já que Sartre parte de uma perspectiva fenomenológica. No entanto, Sartre considera que tais mundos estariam separados, de tal modo que os objetos da consciência, ou seja, imagens e afetos seriam de outra natureza, distinta da dos objetos reais, estes sim sujeitos ao tempo e ao espaço. O mundo real possuiria, assim, suas próprias leis e os objetos, que são percebidos pela consciência, de modo ativo e construtivo, mas ainda assim os objetos reais sempre fornecem conhecimento novo, uma vez que toda percepção que temos é parcial e sintética.
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De modo simplificado, poderíamos afirmar que quando percebemos uma porta, formamos a imagem dela como fechada, aberta, que possui coloração marrom, pela percepção de que nela está presa a fechadura dourada etc. Depois, quando vem à nossa consciência a imagem que formamos da porta (que nesse caso é um objeto real, objetivamente dado), ela sempre virá de um modo particular, tornando a imagem da porta um objeto da consciência, sobre o qual podemos exercer a vontade, ou seja, podemos - na consciência - mudar sua cor, posição, torná-la maior, de outra cor etc., mas nunca teremos um conhecimento novo sobre a porta nessas condições, o que só ocorre com o contato mesmo com o objeto, na presença do objeto e na percepção presente, e não pela imagem, que Sartre denomina uma quase-observação.
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Como não conheço de modo profundo a fenomenologia de Sartre, não posso afirmar exatamente se ele resolve o problema da relação entre dois mundos concebidos como ontologicamente separados e que, no entanto, travam relações através da consciência. O que gostaria de comentar a propósito da temática do tempo é que a despeito de toda objetividade que nossa experiência cotidiana com a contagem do tempo pode nos sugerir, inclusive com a obrigação de pontualidade que temos em certas atividades, resta sempre nossa experiência subjetiva do mesmo, que, pelo menos em nossa consciência, leva a que através da memória (consciência voltada ao passado) ou da projeção (consciência voltada ao futuro) possamos vivenciar uma temporalidade menos material e mais flexível do que chamei de tempo objetivo. É assim que podemos nos lembrar dos entes queridos que faleceram ou de civilizações que há muito já não existem.
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Outro ponto que me pareceu relevante nas ideias de Sartre é que a formação de imagem que fazemos na consciência não é apenas uma espécie de retrato do objeto real, ou seja, uma representação tal e qual o objeto percebido. Ao contrário, toda formação de imagem abarca o elemento da perspectiva e também da emotividade, a saber, a consciência no momento que percebe o objeto atribui certas emoções, que relaciona à imagem. De tal modo que, uma pessoa que goste muito de bebês ou de gatos filhotes, sempre que lembrar em sua consciência de tais objetos anteriormente percebidos, terá imediatamente associado à imagem a emoção de ternura, que aqueles objetos provocaram nele uma ou mais vezes quando foram percebidos no mundo real. O mesmo se diga em relação àquilo que percebemos no mundo e que nos provoca medo, angústia ou nojo, por exemplo.
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Deste modo, permanece a questão em aberto, de se efetivamente o tempo apresenta uma objetividade intrínseca, ou se ele se apresenta às consciências de modos diversos, modos esses que abarcam não apenas diferentes perspectivas sobre os objetos, como também diferentes emoções relacionadas àqueles objetos. Tal assunto leva-me a outro, de viés mais literário do que filosófico, mas que deixarei em aberto para uma nova postagem.

3 comentários:

André Coelho disse...

Enfim, retomando as postagens mais normalmente. Fico feliz.

Gostei da postagem, embora o que ela diga pareça previsível à luz de que se trata de uma abordagem fenomenológica, e não me pareça acrescentar muito à discussão sobre tempo subjetivo e tempo objetivo em, por exemplo, Agostinho e Hume.

Gostaria que Sartre fosse capaz de explicar fenomenologicamente o tempo exterior, objetivo, pois, da maneira como você descreveu, ele parece ser tomado como um dado real fora da consciência, coisa que Husserl, quando propôs a fenomenologia, negou existir, dizendo que se trata de um mito da consciência ingênua, elevado a dogma filosófico pelo positivismo.

Seria ótimo abordar essa teoria em confronto com o episódio literário das madeleines, em Em Busca do Tempo Perdido: O Caminho de Swann. A Linda Cavalcanti curtiria, certamente.

Débora Aymoré disse...

André, bem eu não sou especialista em Sartre, nem em Agostinho, Hume ou Husserl. O objetivo da postagem era ser um ensaio, uma tentativa de nos tirar da nossa relação mais cotidiana com o tempo. Achei legal você fazer seu comentário sobre Sartre não ter acrescentado nada à fenomenologia, embora a crítica que você fez sobre o tempo exterior possa estar relacionada mais ao fato de eu não saber apresentar as ideias do autor, do que propriamente a ele. De qualquer modo, parece-me que Sartre não está preocupado propriamente com as categorias estanques da consciência, mesmo porque ele está tentando negar que a consciência seja uma coisa, com catacterísticas estanques. A consciência, para ele, é um fluxo, continuamente se voltando para as coisas (percepção) e para si mesma (reflexão), sem que possamos afirmar que ela "é" desta ou daquela maneira. É claro que ele, ao caracterizar o mundo das imagens acaba fazendo o que ele queria evitar, que é justamente dotar de características estanques, não exatamente a consciência, mas pelo menos o mundo imagético. Eu apenas discordo do fato de que ele não teria nada a acrescentar, pois parece-me que Sartre, ao introduzir o elemento da emocionalidade, dota que qualidades a percepção, aproximando-se mais de uma psicologia que de uma gnoseologia representativa. Não sei se deu para entender, mas é o que eu acho. Obrigada por prestigiar o blog. Ah, quando à sua sugestão, não li a obra que você indica, então, vai demorar um pouquinho para eu atendê-la.

André Coelho disse...

Agostinho e Hume já tinham dito tanto que havia um tempo subjetivo e um objetivo, quanto que a memória pode e frequentemente é influenciada pelas emoções, motivo por que ela não fornece uma imagem plenamente fiel da realidade experimentada. O que muda talvez seja que, ao contrário dos outros dois, Sartre não considere esses "desvios" como negativos e desabonadores da memória. Mas aqui, de novo, não sei se isso não seria apenas uma conceitualização filosófica da valorização da memória como universo particular subjetivo que a literatura simbolista e moderna já havia explorado exaustivamente.