sábado, 7 de agosto de 2010

Comentários sobre a Relação entre o Tempo e a Consciência - Parte 1


Oo.O.oO


Os comentários a seguir têm como base o fichamento inicial que fiz do Capítulo 1 da obra O fio e a trama: reflexões sobre o tempo e a história de Ivan Domingues. Gostaria, no entanto, de me concentrar em um ponto específico deste fichamento, que é a relação estabelecida entre o tempo e a consciência. Desta maneira, iniciarei com a contextualização dos elementos apresentados pelo autor, seguido de meus comentários na Parte 2 desta postagem.
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Domingues afirma que Dilthey (Introdução às ciências do espírito) considera que a nossa experiência em relação ao tempo tem relação com a intuição do efêmero, que se expressa pela percepção da corrutibilidade da natureza, da fragilidade da existência, da precariedade das instituições sociais e do ciclo a que o homem está sujeito de nascimento, crescimento e morte. Enquanto os primeiros elementos se referem especialmente a caducidade das coisas, este último atinge diretamente ao homem de modo inclemente. Esta experiência em relação ao tempo que leva a necessidade de dotá-la de sentido, mesmo que sem que seja possível resolver completamente o enigma do tempo.
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No entanto, Domingues afirma que a busca de um ponto fixo, ou seja, daquilo que é permanente em resposta a corruptibilidade das coisas não é apenas uma necessidade racional, que permite pensar o móvel, como queria Dilthey. Domingues considera que esta intuição do efêmero tem impacto mais profundo no homem, que, segundo ele, suporta mal a ideia do efêmero, fazendo o possível para afastar de si o sofrimento, a decadência e a morte.
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Baseando-se em literatura antropológica e histórica dos homens arcaicos, gregos e judaico-cristãos, afirma que o que é ressaltado é justamente o lado trágico do tempo, tal como Cronos que devora os próprios filhos, o que mostra que o tempo é mais temido do que desejado, e levando a que os homens tentem evadir-se da História, colocando-se na eternidade, ao abrigo da ação corrosiva do tempo.
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Domingues conclui, assim, que a experiência humana em relação ao tempo é formada por uma díade: a intuição do efêmero e o desejo de eternidade. E, para tratar filosoficamente deste tema, apoia sua análise na antropologia e na história da religião, em especial referindo-se às obras de Mircea Eliade O mito do eterno retorno e em filosofia Ferdinand Alquié O desejo de eternidade e Krzysztof Pomian A ordem do tempo.
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Domingues afirma, com Alquié, que os dispositivos que o homem possui para proteger-se do tempo são o instinto, o hábito, a memória, o esquecimento e a consciência, passa à explicação de cada um deles. Quanto ao instinto, que seria uma espécie de automatismo em relação ao passado e repetição no presente, e ao hábito, que seria o passado pesando sobre o presente e fixado no presente. Estes dispositivos seriam a forma de se insurgir contra o imprevisto, procurando colocar continuidade na ordem do tempo, incluindo o modo de ser dos homens e a permanência das coisas humanas.
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Quanto à memória, esta seria a faculdade do eterno no presente, conservando o passado que se adere aos homens. Esta faculdade permite a reconciliação com a História, através da reinterpretação do passado, dando novo sentido ao que está aparentemente morto. Já o esquecimento, o outro da memória, pode ser realizado em sua ação negativa ou positiva. Negativamente, é a atividade de apagar, ou ao menos empalidecer ou esvaziar o passado. E, positivamente, é lembrar e guardar na memória o que são os "gestos inaugurais", guardando-os na memória, esquecendo-se do que é passível de ação corrosiva do tempo, ou seja, o novo, o imprevisto e o efêmero. Finalmente, com relação à consciência, esta seria a faculdade do eterno por excelência, pois se desprende da cadeia temporal, movendo-se entre passado, presente e futuro.
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Na Parte 2 desta postagem apresentarei alguns comentários, especialmente sobre os dispositivos para que o homem possa estar ao abrigo da ação corruptiva do tempo.

4 comentários:

Anônimo disse...

Li e achei bem interessante. Gostaria de uma explicação um pouco mais detalhada de como instinto, hábito, memória, esquecimento e consciência funcionam como estratégias de reação perante a inevitabilidade e a corrosão do tempo. Ah, e quero ler os seus comentários pessoais também. Beijos.

Anônimo disse...

Ah, mais uma coisa. Em Ser e Tempo, Heidegger dirige contra toda a metafísica ocidental a acusação de que ela baseou a concepção de ser numa negação do tempo, concebendo o ser como permanência ao longo do tempo. Heidegger tenta inverter esse projeto e conceber o ser (nesse caso, o Dasein) como só se realizando no tempo, como sendo eterna abertura, possibilidade, projeto e construção. Sendo assim, a metafísica do Dasein, base de muito da reflexão contemporânea, não seria uma exceção à regra de tentar fugir ao ciclo do tempo e da corrosão que ele produz? Não seria interessante ver Heidegger (talvez mesmo Hegel) como um ponto de virada da relação mais tradicional de fuga do tempo para uma relação de abraçamento do tempo? Habermas também aponta que (a partir de Hegel) a modernidade se autocompreende sempre como projeto inacabado e que a noção de aceleração dos tempos e de eterna possibilidade aberta de um futuro melhor são essenciais à compreensão moderna do homem, da vida e da história. São posições que de repente valeriam interlocuções válidas com a postura mais tradicional que está sendo descrita na postagem. Beijos.

Débora Aymoré disse...

André, muita gentileza sua escrever no meu blog, sempre acrescentando elementos e questionamentos importantes. Eu devo postar em breve os meus comentários e, como antecipei, eles versam justamente com relação a essas estratégias de reação perante o efeito corrosivo do tempo. No entanto, antecipo que no livro mesmo a partir do qual resumi as principais ideias na postagem, essas estratégias não são muito bem definidas. Por exemplo, não sei se são considerados presentes na própria estrutura biológica humana, ou se são apenas formas foram desenvolvidas (na psique) para reagir ao tempo. Este me parece um elemento importante, pois deixaria mais clara a posição do autor, de se ele considera essas estratégias fixas ou móveis (e, então, passíveis de reconstrução). Parece-me, pelo que li, que seriam fixas, se consideramos os indivíduos e móveis se consideramos o imaginário geral das civilizações, como consta na parte que li hoje de manhã, pois mostra representações diferentes do tempo por civilizações arcaicas, grego-romana, do medievo e da modernidade. Aos poucos falarei mais sobre este último tema, ainda estou refletindo a respeito. Abraço.

Débora Aymoré disse...

Com relação a suas considerações sobre Heidegger, posso lhe dizer que elas acrescentam pontos positivos à reflexão que fazia esta manhã. De fato, parece-me que o ponto em que a modernidade se distancia em relação a antiguidade, é a percepção da fugacidade das coisas humanas, mas, se entendi bem sua explicação, esta passagem do tempo e o seu efeito corrosivo são interpretados positivamente, pois abrem a possibilidade de construção de um futuro para além dos supostos ciclos a que estariam submetidos as sociedades antigas. A princípio, eu concordo com você, no entanto, queria ressaltar que o autor, Domingues, parece ter considerações diferentes quando trata do individual e do coletivo (como apresentei no comentário anterior). Parece-me que, individualmente, a questão da reação ao tempo (a mortalidade do homem e instabilidade das coisas humanas) é uma questão psicológica, motivada pela busca de impedir a própria destruição. É assim que compreendo a função do instinto, ou seja, como busca de auto-preservação. Por outro lado, quando trata coletivamente e, deste modo, das interpretações que certas civilizações teriam, Domingues parece mostrar algum elemento de conciliação na interpretação que cada civilização teria dado a sua relação com o tempo. Digo isto porque parece-me que dotar de algum sentido, o sem sentido da passagem do tempo e de nossa mortalidade, que nos sujeita ao trabalho incansável sem que tenhamos definitivamente um norte para nossa ação, é aterrador para o indivíduo, mas pelo fato de as instituições (e aqui incluo a cultura), serem levadas adiante por mais de uma geração, a sensação para o indivíduo que acaba de chegar no mundo, é de certo conforto, pois para além de sua iminente destruição, há uma tradição que mostra que as civilizações permanecem, mesmo que mudando de tempos em tempos. Bom, aqui volta a questão do ciclo, não é? Mas, de qualquer modo, seria interessante começar a relacionar também a questão da hermenêutica com a história e aqui, sem dúvida, autores como Gadamer, Heidegger e Hegel mostrariam toda a sua importância. Desculpe se ainda não estou suficientemente preparada para fazer estas conexões. Abraço.