quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Palestra na ANPOCS: A imagem do desenvolvimento da ciência, Parte 2

Caros, em primeiro lugar, peço desculpas pela demora em postar a segunda parte da minha palestra. Espero que aceitem a justificativa de que estive realmente muito ocupada, ou que eu planejei mal o meu tempo. De qualquer modo, esta postagem é uma continuação da Palestra na ANPOCS: A imagem do desenvolvimento da ciência, Parte 1, que pode ser acessada e lida conforme o interesse de cada um. Naquela primeira oportunidade, apenas contextualizei de modo geral o evento em que a minha palestra se inseria, apresentei a proposta geral da mesma, porém deixei questões relativas propriamente ao conteúdo da palestra para esta segunda parte. Uma informação importante é que o título completo da apresentação que me coube é A imagem do desenvolvimento da ciência: uma abordagem kuhniana da atividade científica e foi ministrada nos dias 25 e 26 de outubro de 2010 em Caxambu, Minas Gerais.
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Como o subtítulo da palestra sugere, o objeto desta apresentação são as ideias sobre a atividade científica de Thomas S. Kuhn (1922-1996), que, físico de formação, passou a se dedicar à história e à filosofia da ciência. Kuhn, autor que escreve suas obras no ainda bastante próximo século XX, obteve a sua graduação em Física (Harvard) no ano de 1943, obtendo na mesma instituição a sua pós-graduação também em física entre os anos de 1946 e 1949. Já em 1949 começou a dar aulas para a graduação sobre ciência. Em 1957 escreve a sua primeira obra propriamente de história da ciência, chamada A revolução copernicana. Mas, é no ano de 1962, que Kuhn publica a obra que terá um grande impacto e repercussão nos meios acadêmicos, que é A estrutura das revoluções científicas (doravante Estrutura). Kuhn afirma que a ideia de escrevê-la surgiu 15 anos antes de sua publicação, período, portanto, em que realizava a sua pós-graduação. O resultado das pesquisas que Kuhn realizou levou-o a mudança drástica nos seus interesses da física para a história da ciência e da história da ciência para a filosofia da ciência.
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Kuhn dialoga na Estrutura com o que denomina o modo tradicional de análise da ciência, que sugere que o desenvolvimento da ciência ocorre por acumulação de conhecimento e busca um método único capaz de demarcar o conhecimento que pode ser legitimamente considerado científico. Desta maneira, esta perspectiva tradicional da ciência, recorre ao passado da mesma apenas na medida em que é útil para justificar o estado atual de leis e de teorias científicas, compreendendo que os conhecimentos e técnicas de produção da ciência contemporâneos são melhores dos que os do passado. Exemplo deste modo de analisar a ciência é a história que visa os precursores, ou seja, aqueles autores do passado que influenciaram direta ou indiretamente ideias contemporâneas. Kuhn considera que, na verdade, o modo tradicional de análise da ciência, comete o equívoco de retirar teorias científicas e seus autores dos seus contextos de formação e, portanto, trata a ciência de uma maneira a-histórica. O estudo bibliográfico da ciência realizado por Kuhn mostrou justamente que esta perspectiva era no mínimo parcial.
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A parcialidade do modo tradicional de análise da ciência estava em que, segundo Kuhn, o desenvolvimento da ciência apresenta não apenas momentos de acumulação de conhecimento, mas também momentos de ruptura com esta acumulação. E, justamente estes momentos de ruptura, ocorrem devido a mudança de métodos de pesquisa científica, conceito este que será alargado por Kuhn que, conforme veremos a seguir, considera que a ciência possui paradigmas e não apenas uma metodologia segundo a qual investiga seus objetos. Assim, Kuhn propõe a chamada nova história da ciência, que defende momentos de acumulação e de ruptura de conhecimento, bem como procura recolocar a ciência no tempo e no seu contexto próprio de realização, ou seja, procura compreender o desenvolvimento da ciência na sua história. Para realizar esta nova história da ciência Kuhn cria novo conjuto de conceitos a respeito do que é a ciência e de como ocorrem as mudanças na mesma, procurando a chamada história real, no sentido daquilo que efetivamente aconteceu.
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Por mais que Kuhn discordasse das conclusões da história tradicional da ciência, ele reconhece que ela trabalha com determinadas fontes para a partir delas fazer afirmações sobre a ciência. Kuhn observa que as fontes que normalmente são utilizadas pela história tradicional são os manuais científicos, os textos de divulgação científica e as obras filosóficas. Vale dizer, que nestas três formas de apresentar a ciência possuem objetivos eminentemente persuasivos e pedagógicos, apresentando um conceito de ciência diferente daquele que surge do estudo histórico mais profundo da ciência. No caso dos manuais científicos, como toda obra que visa formar especialistas em determinada área, eles se concentram nas teorias contemporâneas. Os textos de divulgação, por sua vez, precisam elaborar para uma linguagem familiar, teorias que são extremamente especializadas. E, as obras filosóficas, partem de generalizações como aquelas elencadas da acumulação de conhecimento e de que a ciência de todas as épocas podem ser reconhecidas pelo método que utilizam, sendo este sempre o mesmo.
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Por sua vez, a nova história da ciência, mesmo que fazendo uso das mesmas fontes, as encara a partir de perspectiva diferente. Em primeiro lugar, considera importante a prática científica efetiva. Em segundo lugar, dota a ciência de fases de desenvolvimento que podem ser de ciência normal ou de ciência extraordinária, em ambos os casos apontando a importância dos paradigmas para a compreensão da ciência. E, em terceiro lugar, afirma a existência de revoluções científicas, ou seja, momentos em que há mudança brusca dos pressupostos segundo os quais os cientistas realizam a sua atividade de pesquisa. Podemos adotar como primeira conceituação do termo "paradigma", que ele é um conjunto de suposições e padrões aceitos com base em uma realização científica importante e que determina a prática científica posterior. Kuhn oferece como exemplo de paradigma a Óptica e a Mecânica newtoniana. Porém, conforme veremos a seguir, Kuhn considera que um ramo do saber não nasce uma ciência, ele, na verdade, se faz ciência ao longo de sua história. É preciso, portanto, observar a transformação de um estado para o outro.
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Kuhn afirma que existem fases do desenvolvimento da ciência, que vão desde o período pré-paradigmático, ou seja, em que observamos a discussão sobre os objetos, os métodos e os problemas de uma determinada disciplina. No caso, ainda não se tem propriamente uma ciência, porque falta o consenso em torno do objeto de investigação. Neste sentido, é possível afirmar que o período paradigmático é, segundo Kuhn, caracterizado por pluralidade de escolas, por discussão e discordância sobre os fundamentos da ciência, por dificuldade de determinar as observações relevantes e, finalmente, por discordância sobre teorias, métodos e instrumentos de pesquisa. Assim, o que marca qualitativamente a passagem de uma disciplina para uma ciência propriamente dita é a adoção de paradigma único, a partir do qual os cientistas verão os seus objetos de estudo, serão capazes de realizar as suas pesquisas e de comunicarem entre si os resultados de modo não-problemático. Outra característica importante do período paradigmático é, contrariamente, a possibilidade de ocorrência das revoluções científica.
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As revoluções científicas, então, podem ser compreendidas como aqueles momentos em que a ciência substitui um paradigma por outro, o que leva a conjunto distinto de supostos da investigação científica. A partir da aplicação contínua de um paradigma, os cientistas podem obter situações não abarcadas pelo mesmo, ou seja, como se a realidade não se comportasse do modo como prevê a teoria, fazendo com que aos poucos vá se perdendo a confiança em relação à capacidade do mesmo de fazer com que a pesquisa realmente obtenha resultados. Kuhn denomina o momento de desconfiança em relação ao paradigma e da busca de solução de problema aparentemente insolúvel a partir do mesmo de crise. Semelhantemente ao que ocorre nos períodos de crise política, os debates profundos sobre o paradigma que ocorrem no período de crise, preparam os cientistas para a busca e possível adoção de um novo paradigma. Caso efetivamente a comunidade científica decida que outro paradigma é melhor para a pesquisa e o adotem como padrão, estaremos diante de uma revolução científica.
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Evidentemente, alguns problemas podem ser colocados para a proposta kuhniana de nova história da ciência. Considero que a mais importante seria a seguinte: o conceito de paradigma se aplica igualmente para todas as ciências? Levando em consideração, neste caso, as ciências humanas, sociais e exatas. Exemplo relevante desta discussão seria nos perguntarmos se a Sociologia é caracterizada por um paradigma único e, por conseguinte, é uma ciência madura em sentido kuhniano, ou se ela é caracterizada por uma pluralidade de escolas e, deste modo, uma disciplina ainda em estado pré-paradigmático para Kuhn. Apesar deste questionamento, gostaríamos que ao final desta apresentação, algumas ideias fossem levadas em consideração como relevantes na proposta kuhniana: a primeira é sem dúvida a mais importante, que é justamente aceitarmos a ideia de que a ciência precisa ser analisada como um objeto histórico, estando sujeita a mudanças a depender do período considerado. A segunda questão é que a educação paradigmática torna predominante certos modos de realizar a pesquisa científica, consequentemente, qualquer mudança na imagem de ciência predominante passa pela análise crítica de tradições anteriores.

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